O esporte enquanto atividade de lazer abandonou seu ideário da prática ligada à saúde, ao prazer e à socialização, partindo para uma “cruzada nas terras” do esporte espetacularizado ou esporte de alto rendimento, com metas maximizadas, com buscas constantes por ultrapassar limites, quebrar recordes, melhorar a performance.
Hoje, construir uma história do esporte linear ao longo dos tempos parece um tanto precipitado. Pois as práticas de movimento corporal estiveram presente nas mais diversas e antigas culturas ao longo da história da humanidade, no entanto, os contextos em que elas se inserem são tão diversos que é impossível pensar em uma continuidade histórica ainda que em alguns casos a forma dos jogos seja bem parecida.
Os jogos tradicionais, aqueles ligados ao lazer, até por volta de 1800, estavam ligados a festas como aquelas feitas em homenagem à colheita ou a algum motivo religioso. Com os processos de urbanização e industrialização, houve mudanças nas condições de vida da sociedade o que afetou também a maneira como os jogos eram realizados. Fatores como a jornada de trabalho, a urbanização, a modernização da comunicação e do transporte e, conseqüentemente, o aumento do tempo livre foi determinante para a expansão da prática esportiva.
Neste ponto farei uso de algumas idéias já consolidadas, como no caso do Foucault, que diz que a disseminação da prática esportiva também estava ligada à preocupação da burguesia com a saúde das classes trabalhadoras. Uma vez que corpos sadios produzem mais, além de que, era necessário o controle da população para que a produção não decaísse. Percebe-se então que tanto os sistemas ditos ginásticos quanto o esporte na Inglaterra, traziam um caráter moralizante seguindo um modelo de ordem, disciplina e hierarquia estando ligados, fundamentalmente, à questão médico-higienista.
Elias contrapõe-se a tais idéias, uma vez que tanto a industrialização quanto a organização do desporto diz respeito a um quadro de transformação mais ampla nas sociedades-estados desde aquela época, fazendo parte da conjuntura econômica e social. Em especial, o fato de o desporto passar a fazer parte do divertimento da nobreza estava estritamente ligado a mudanças quanto à sensibilidade em relação à violência para essa classe social.
O nível de violência física socialmente permitido e o limiar de repugnância contra o seu uso assumem formas específicas em diferentes estágios no desenvolvimento das sociedades. A emergência do desporto, como um tipo de confronto relativamente não violento, estava diretamente ligado ao fato de os ciclos de violência terem abrandado e os conflitos de interesse passaram a ser resolvidos de acordo com regras aceitas por ambas as partes. Desta forma, o desporto advém de uma forma de lazer resultante da necessidade de sublimação que um alto grau de civilização requer.
O desenvolvimento do esporte, tal como hoje o conhecemos, vem ao encontro do desejo dos vitorianos de impor certo controle das paixões indômitas, contendo a agressividade e mobilizando-a para a construção e não para destruição. O esporte disciplinado era uma forma de combater uma possível desordem social, um equivalente moral para a agressividade.
Para Bracht, o modelo de organização do esporte, construído concomitante ao processo de racionalização e secularização da sociedade, disseminou-se, tornando-se um paradigma do esporte moderno. Dessa forma, a cultura corporal do movimento esportivizou-se incorporando valores intrínsecos à sociedade capitalista como: orientação ao rendimento e à competição, o cientificismo do treinamento, a organização burocrática, a especialização dos papéis, a pedagogização e o nacionalismo.
Então quando nós, amantes do esporte lúdico, aqueles que duvidam da necessidade de tanta competitividade, por vez ensinamos nossas crianças que o importante é participar e não competir, que repudiamos qualquer traço de violência na sua prática… Precisamos refletir, com cuidado, quanto aos aspectos históricos da formação destes esportes e das suas características intrínsecas nesta sociedade, exclusivamente, capitalista e “espetaculoza”.
Referências Bibliográficas:
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1993.
ELIAS, Norbert. A gênese do desporto: um problema sociológico. In: ELIAS, Norbert. DUNNING, Eric. A busca da excitação. Lisboa: Difel 82, 1992.
BRACHT, Valter. Sociologia crítica do esporte: uma introdução. Vitória: UFES, 1997.
Guilherme Vieira.
Florianópolis, Julho de 2012.
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